Perícias interpretativas: escola velha e escola nova

Para quem já se formou faz algum tempo (mesmo da faculdade), para mim toda escola é escola velha. Mas de uns tempos para cá, os velhinhos como eu começaram uma onda nostálgica, que não parou mais. Desde então reimprime-se caixas e caixas de banco imobiliário, se produz jogos de 8-bits como Mega Man 10 em pleno ano que faremos contato, e começaram a sair inúmeros retro-clones de RPG das antigas.

Não estou sendo ranzinza, eu adoro a nostalgia tanto quanto o ancião aqui do lado, adoro as músicas do Mega Man e acho que o projeto Old Dragon foi uma das melhores publicações nacionais de RPG ever, sério mesmo. Mas acho que meu lado vulcano às vezes me obriga a ver as coisas mais com a razão do que com a emoção. E o que isso tudo tem a ver com Dungeons & Dragons 4ª edição, Anand?

Eu li esse post do colaborador “Oculto”, na Fale RPG, que me incomodou um pouco (em termos de conteúdo: o artigo tá bem escrito), que basicamente diz o seguinte: para deixar seu jogo mais old-school (leia-se escola velha em português), basta remover, entre outros, as perícias que dependem de representação e role-play, como Diplomacia, Blefe e de conhecimento do personagem versus conhecimento do jogador (Intuição, Percepção, História, etc).

Bom, se esse é o método da escola velha, prefiro o método da escola nova: Role antes de interpretar.

Simples assim. Você vai fazer uma ação diplomática, tentando convencer os líder dos Orcs à recuar com suas tropas? Pergunte a dificuldade para o DM, role sua perícia, e represente o que o dado te mostrar. Você rolou um pouco acima da dificuldade? Faça um role-play compatível: você apresenta argumentos razoáveis para ele retornar. Você rolou muito acima da dificuldade? Apresente argumentos emocionados e irrefutáveis para o Orc, ganhe um oscar na mesa. Você rolou um belo de um 1 no dado? Aqui é que mora a diversão.

Se você falha, e sabe que falhou, represente sua falha. Numa situação diplomática, você manda pro vinagre todas as convenções sociais. Você chama o orc de frutinha, e ainda chama ele pra batalha. Num teste de Blefe, você é obviamente mentiroso, e ainda dá uma piscadinha no final. Não só você tem uma excelente oportunidade de interpretação e roleplay que tem tudo para ser muito divertida, mas também ninguém vai te culpar pelo role-play. Podem, no máximo, culpar seus dados azarados.

Ah, mas e o bônus ou penalidade pelo role-play? Ele entra nas situações quando a rolada foi próxima da dificuldade. Se você falhou por alguns pontos, mas fez um discurso impressionante, ou gastou a lábia, o DM pode conceder um sucesso mesmo assim. Por outro lado, se passou em cima ou por só alguns pontos, e sua representação foi medíocre, o DM pode considerar sua ação uma falha.

Dessa maneira, você estará fazendo valer os pontos investidos na ficha do seu personagem, separa o conhecimento do PC do jogador (que é bem da nova escola) e ainda garante momentos de role-play muito divertidos com seu grupo que tenho certeza que vão providenciar risadas e momentos memoráveis, assim como era nos bons tempos do Megaman.

E rolem 20!

Sobre Daniel Anand

Daniel Anand, engenheiro, pai de gêmeas e velho da Internet. Seu primeiro de RPG foi o GURPS Módulo Básico, 3a edição, 1994. De lá para cá, jogou e mestrou um pouco de tudo, incluindo AD&D, Star Wars d6, Call of Chuthulu, Vampire, GURPS, Werewolf, DC Comics (MEGS), D&D 3-4-5e, d20 Modern, Star Wars d20, Marvel Superheroes, Dragonlance SAGA, Startrek, Alternity, Dread, Ars Magica e atualmente mestro D&D 5E on-line via Fantasy Grounds. @dsaraujo
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46 respostas a Perícias interpretativas: escola velha e escola nova

  1. DM Rafael disse:

    Boa sugestão. Vejo pouca gente interpretando uma grande falha, e acho que é realmente um desperdício de chance de diversão. Vou incentivar uma pouco mais esse roleplay.

    Dito isso, gostaria apenas de acrescentar que iainda tenho em casa (e muito acabado) aquele livrinho vermelho edição de portugal da abertura do post. Bons tempos do rpg moleque, como diz o Tchelo!

  2. Cara, perfeito!
    Em todos esses anos, nunca vi uma forma tão óbvia de lidar com o dilema roll/roleplay: role e depois interprete!
    O dado cria o gancho pra sua interpretação, em vez dele entrar em conflito com a interpretação que você fez antes de rolar.
    Parabéns pela sacada, você acabou de salvar a new school, hehehe.

  3. SharpWalker disse:

    É bem por aí… os personagens e toda a mecânica devem ser interpretados. Nos tempos Old Schools nem sempre essa percepção era clara, mas isso não quer dizer q era bom ou ruim jogar assim. Eram tempos mais… "inocentes"…

    Rolar antes e interpretar depois é uma boa. Outra coisa que eu faço é bonificar as boas atuações, concedendo um +1 ou +2 para as próximas roladas. Isso motiva os jogadores a interpretar, principalmente nas falhas.

  4. Rovalde disse:

    Cara lembrei do Guerreiro da minha mesa (o memso das scourges). Ele sempre um teste de intimidação quando começa o combate ou quando os monstros ficam blooded. Mas, por alguma razão bizarra, ele sempre tira algo entre 1 a 5 no d20, geralmente 1. Oo A diversão vem dele interpretando o 1 que geralmetne é uma voizinha fina dizendo "Xô monstrinhu, xô!" 😀 .

    Eu joguei com um arqueiro por um bom tempo e ele tinha um problema similar, sempre tirava 1 nos primeiros ataques (foi assim em quase todo combate que tivemos durante os primeiros níveis). O Mestre, por alguma razão sadica, sempre dizia que eu acertei um de meus aliados (e rolava para ver quem era o azarado da vez) Chegou uma hora em que eu sempre gritava antes de atirar "Vou lançar uma flecha!!" e o resto do grupo rolava para ver se conseguia cobertura ¬.¬

  5. Puppet disse:

    Olha a 4ed nunca vai ser old-school, não usando aquele o artigo que você indicou, ele esqueceu de uma mecânica que marca o antigo D&D.

    SAVE OR DIE !!!

    Se não tiver que usar uma vara de 3m não é Old School. Sei lá as coisas mudam, os tempos do AD&D ficaram na memória e são uma boa lembrança mas, não jogaria hoje.
    My recent post Reporte de sessão 1

  6. @freitaslex disse:

    Anand, só não entendi uma coisa, quando você fala: "separa o conhecimento do PC do jogador (que é bem da nova escola)", está realmente dizendo que na escola velha não separávamos o que o player sabia do que o personagem sabia? Engraçado, pois se foi isso eu sou da geração que jogava RPG desde a época da chamada "geração xérox", porém, caso tenha entendido seu post, já éramos da "escola nova" e nem sabíamos! Interessante isso! Pois na minha opinião e tradicional maneira de jogar, que penso ser da escola velha, o player podia ser professor de história na universidade mas se o personagem fosse um bárbaro burro com 8 de inteligência ele, por mais que soubesse toda a história de Ravenloft, não poderia, no jogo, aproveitar nada disso! No resto, como sempre, muito bem redigido seu artigo, parabéns!

    • Daniel Anand disse:

      Na oldschool, o conhecimento do jogador e do personagem muitas vezes se misturam, principalmente na resolução de quebra-cabeças e desafios mentais. Não temos testes para ver se seu PC de Int 18 resolve o desafio, o jogador que precisa ter tutano. E isso pode ser muito legal!

      Mas isso não tem a ver com role-play. Se tivesse Int 8, mesmo na oldschool se fazia roleplay de um cara burro. Mas podia ajudar nos enigmas, também, se explicasse de onde viesse a iluminação! 🙂

      • @freitaslex disse:

        Pois é, então eu realmente entendi o que você redigiu! Peço que, data venia, permita-me discordar somente nesse ponto, pois acho que a separação do que o player sabe daquilo que o personagem sabe está bem presente na velha escola. Joguei a velha escola com a seguinte máxima: "só usa o que está na sua ficha, se não tiver não usa, não sabe e tal. Nem mais nem menos, joga conforme a ficha." Bem, se isso é escola nova, acho que sou RPGista de vanguarda! Abraços e continue com o site que está cada dia melhor! Ah! E sentimos a falta do Tyler no jogo de ontem! Valeu!

    • SharpWalker disse:

      Não podemos generalizar, mas acontecia esse tipo de coisa em muitas mesas, principalmente no D&D e AD&D. Eu tbém comecei com xerox, e vivenciei nos tempos de escola velha essas duas situações.

      Engraçado que isso contraria o pensamento de que a 4e é videogame de papel…

      • @freitaslex disse:

        Pra mim, realmente, nunca foi videogame de papel, a propósito que apelido horroroso! Não por conta do termo videogame, em estrito senso, pois sou louco pelos meus Ps, PS2 e Ps3! rsrsrsr! Mas sim, pela carga pejorativa que o povo que não quis "gastar" seu dinheiro em uma nova edição, pois tinham torrado muito na terceira edição, atribuiu ao D&D 4, ehehehe, aliás, conheço muita gente que tem TODAS as edições do D&D e nem por isso se arrepende! Outra questão é o pessoal que estava ganhando dinheiro com licença aberta do D20, destaque para os maiores formadores de opinião do RPG nacional – trio tormenta -, e por conta da 4ª edição iriam deixar de ganhar em cima do D&D, aí, meu amigo, começaram a "esculhambar" geral a nova edição, triste e patético… Ainda bem que o pessoal que não tira suas opiniões somente das idéias dos outros, ou seja, que preferem verificar com seus próprios olhos e tirarem suas próprias conclusões, a maioria, gostou da 4ª edição, que o diga a Devir e sua reimpressão do Livro do Jogador… eheheheh!

        • Leisses disse:

          freitas felizmente essa fase de ficar caindo em cima da quarta edição parece que já passou (talvez a reimpressão do livro do jogador ajudou né?). Sendo assim prefiro não comentar mais sobre este assunto (pois seria reviver discussão morta).

          Agora sobre o que o Anand colocou, imagino que ele quer dizer que antes você dependia da boa vontade do jogador para fazer valer o role-play coerente com o personagem. Já com o sistema de pericias que dependem de role-play o grupo possui um parâmetro (definido pelo dado+ficha) para discernir o que o personagem pode ou não fazer.

          Eu gosto muito dessa opção de jogar o dado e depois interpretar. Só acho que o texto ficou um pouco controverso no final (já que pede para interpretar muito bem para obter um bônus quando se fica um pouco abaixo do habitual). Acredito que se ficou abaixo, faça algo que represente o valor tirado no dado.

          Eu não daria um acerto em um ataque para um jogador que inventou um jeito especial de atacar um adversário mas falhou no dado, ataques bem elaborados não possuem a obrigação de ser efetivos (certa vez quase apanhei do grupo porque não deixei o cara pular uma janela para atacar o monstro porque ele falhou vergonhosamente no teste de saltar. Eu coloquei a janela ali exatamente para atrapalhar a passagem, não tinha motivos para deixá-lo saltar se ele falhou no teste, mesmo com a ótima idéia que ele tinha para a situação) Ao invés disso acho que vale dar bônus em outras jogadas em função da boa interpretação.

  7. Marcus Mortati disse:

    Ótima sacada! Creio que um jogo ser Escola Velha ou Nova, depende do Mestre de Jogo, seus jogadores e, em grande parte, de ambientação. Desde a 1ª edição, considerava o SAVE OR DIE, ou o Energy Drain injustos. Lembro que todos os aspectos do jogo são customizáveis e o DM, levando em consideração o estilo de jogo e sua ambientação deve decidir que aspectos do jogo devem ser mantidos ou retirados, seja em qualquer edição que se esteja jogando.

  8. Mr. Pop disse:

    Oi Anand!

    Ótimo artigo! Explica sem fazer juízo. Parabéns!

    O esquema de abandonar as perícias sociais, é realmente um dos pilares do "Oldschoolismo". É algo que é incômodo pra quem não gosta da mecânica mais recente, portanto dificilmente estará presente num conjunto de regras de um retroclone.

    Ambas as possibilidades possuem problemas graves, mas o que joga contra o oldschool neste quesito é que o problema é ainda mais grave. Misturar e separar o conhecimento do jogador e do personagem é algo que exige maturidade e até responsabilidade, coisa que dificilmente vemos com frequência. Na outra opção, o rolamento de dado, tira bastante da liberdade de ação do personagem.

    Personalidades centradas, inteligentes, espertas, com mentalidade sagaz e mestre no tirocínio, se representadas nos sistemas mais modernos, muito dificilmente tirariam um 1 no D20.

    No entanto, a saída que vc indica é a melhor pra quem gosta de usar perícias sociais. Na minha mesa de 3.5 fazíamos os testes desta mesma maneira!

    Abraços a todos!

    • Daniel Anand disse:

      Valeu pelos comentário Mr. Pop!

      Eu concordo que é difícil tirar 1 no d20 (é 5% de chance, certo), mas mesmo grandes estadistas e prêmios nobels já pisaram na bola alguma vez na vida. É ou não é um excelente momento para fazer o role-play?

      • Leisses disse:

        O Mr. Pop estava na ocasião do saltador de janelas mencionada em meu comentário anterior.

        Sobre o caso que o Mr. Pop falou acredito que existe solução sim. O cara pode usar uma boa conversa mas cometer uma gafe no caminho que estrague toda a argumentação.

  9. Marcelo Dior disse:

    Claro que o Anand não está sugerindo o que vou dizer a seguir em seu texto, mas acho que vale a pena ressaltar que esse negócio de interpretar para ganhar bônus sempre vai favorecer os estudantes de Artes Dramáticas, Jornalismo e Marketing de sua mesa. Os probres coitados técnicos em TI vão sempre tem penalidades por causa de má interpretação.

    Se sua mesa de jogo é composta por gente que ama interpretar, é praticamente um LARP com dados, vá em frente. Mas há uma alternativa (a que eu uso): a interpretação é feita com o intuito único de se divertir, e de deixar o jogo mais legal — mas não lhe dará nenhum bônus ou penalidade. De outro modo, sugerimos que interpretar é obrigatório para jogar direito, acho eu.

    • SharpWalker disse:

      Eu até concordo com vc, Marcelo, mas sou da opinião de que o Mestre deve entender as limitações reais de seus jogadores e julgá-las de acordo. Um jogador introvertido que usa o resultado numa rolagem de diplomacia e se supera, descrevendo bem suas ações e mesmo vencendo suas dificuldades para externar sua interpretação merece um bônus muito maior do que o estudante de teatro que já senta na mesa usando a "pele" do personagem. Merece bônus, reconhecimento e incentivo.

      • Marcelo Dior disse:

        Isso me soa como suborno: não precisa interpretar, mas se interpretar vou fazer você se dar bem. Porque o jogador tem que ganhar alguma coisa se fizer o que eu quero? Isso se faz para condicionar um cão; se ele sentar, deitar e rolar, ganha um pedaço de queijo. Se o jogador interpretar que está nervoso, ganha pontinho. Se só disser "meu personagem está nervoso", não ganha. Tudo bem se não interpretar! Mas não vai ganhar bônus.

        Seguindo essa lógica, eu como DM deveria ganhar alguma coisa por usar parte da minha semana para preparar a aventura. De agora em diante, se meus jogadores me trouxerem comida e bebida, e fizerem massagem nos meus pés, irão ganhar itens mágicos. Se não fizerem nada disso, tudo bem. Só não vão ganhar itens.
        My recent post Habanero e eu

        • SharpWalker disse:

          Ué… sempre achei que essa era minha motivação em ser DM… hauahuahuaha

          Você já deve ter reparado, Marcelo, que alguns jogadores precisam de mais incentivo que outros para se divertir. Alguns realmente precisam ser "subornados" com xp, outros com bonificações e etc… Outros preferem reconhecimento, respeito, atenção… Creio que é, sim, papel do DM observar esse tipo de coisa e proporcionar a todos a melhor diversão possível. Faz parte da responsa, está atrelado ao papel.

          Se não quiser interpretar uma rolagem, o maior prejuízo é a falta de vontade em si. Perdeu a oportunidade de se divertir, talvez devesse até reconsiderar o tempo gasto com esse hobby. Mas por que deixar de incentivar um bom desempenho, se o resultado é benéfico?

          Mas vc está certo, esse tipo de atitude pode ser prejudicial se usada indiscriminadamente e o grupo só se interessar em números, bônus, vantagens… Aí é melhor parar de jogar RPG e partir prum vs. no Street Fighter II.

          Cabe ao mestre e ao grupo perceber o que funciona melhor, o que pode ser melhor aproveitado e assim ter um bom tempo juntos. Ouso até admitir que tem gente que prefere jogar assim, adestrados, marchando sem vontade apenas pra destroçar orcs e ganhar gp. Pra que, eu não sei…

        • Daniel Anand disse:

          Calma aí também. Precisa interpretar sim. É roleplay game. Sem interpretação, não tem RPG. Mas quando eu falo para interpretar depois de rolar, não quer dizer que se acendem os holofotes e abrem-se as cortinas. Você pode fazer em terceira pessoa, você pode ser sucinto, você pode só descrever a cena. Tudo isso é válido e é interpretação do seu personagem.

          Eu acho que o mestre pode incentivar os jogadores não a representar, porque isso faz parte do jogo. Ele tem que incentivar a fazer uma interpretação interessante, que instigue a mesa, que seja divertido, que seja memorável. Falar que seu personagem está nervoso é representação, mas não é um grande esforço da sua parte. Falar que seu personagem está comendo o chapéu de raiva, merece algum bônus. Sacou?

          • Marcelo Dior disse:

            Acho que vemos o RP do RPG de maneiras diferentes. Para mim, interpretar um meio-orc bárbaro (adoro esse exemplo) é decidir seus cursos de ação, como irá se comportar na festa do barão e se irá cheirar o ar ao rastrear. Ou seja, as atitudes do meu personagem.

            Acho que você, como vários outros jogadores de RPG, entende por interpretar engrossar a voz quando seu personagem meio-orc bárbaro fala, talvez até usando uma dentadura postiça para as palavras saírem estranhas (porque a boca cheia de dentes do orc dificultaria a fala de uma língua humana). Essa é uma visão do RP do RPG completamente válida — enfatizo, completamente — mas entender não é aceitar. Eu detesto teatrinho, e morro de preguiça de jogar com gente que vem para a mesa de jogo vestido como seu personagem, ou que insiste em ficar com um olho fechado e outro esbugalhado para interpretar o pirata. E não há limites para esse tipo de coisa. Hoje os jogadores vêm jogar sem camisa, amanhã trazem flutuadores de piscina moldados como cajados, semana que vêm começam a vir pintados com tatuagens falsas pelo corpo todo e o cabelo raspado dos lados. Em um mês, vão começar a quebrar sua mobilha. Eu vi isso: um jogador numa mesa de jogo em Franca-SP veio vestido de Night Wolf do Mortal Kombat com um facão de verdade (que eu confisquei) e, quando eu falei que uma lança vinha na direção dele, ele literalmente se jogou no chão e começou a rastejar em direção ao outro cômodo, ao invés de pegar seus dados e rolar esquiva.

            É um exemplo extremo o que usei acima, mas você nunca pode garantir a sanidade mental (ou o desconfiômetro) de qualquer pessoa à sua volta, sem falar que as teorias da dinâmica de grupo mostram que comportamentos e personalidade de um membro contaminam os outros. Depois do showzinho do Night Wolf, todo mundo começou a aparecer maquiado e com armas de espuma, até eu dar um basta naquele arremedo de LARP.

            Estimular teatrinho, a meu ver, prejudica os jogadores desinteressados nesse tipo de jogo mais RP que G — é como dizer que para jogar truco tem que gritar. O SharpWalker anotou que o DM deve perceber que tipo de jogo seus jogadores preferem "e proporcionar a todos a melhor diversão possível" e concordo plenamente. Porém, toda vez que alguém discute roleplay, é para ressaltar o lado teatrinho, em detrimento dos jogadores que entendem interpretar como eu descrevo no segundo parágrafo deste comentário.
            My recent post Habanero e eu

          • Daniel Anand disse:

            Eu detesto teatrinho e gente que faz voz ridícula em mesa também, mas acho que interpretar é, além do que você citou, descrever o que passa na cabeça do seu personagem. Falar em primeira pessoa é algo quase intrínseco ao D&D: qualquer edição vai mostrar os jogadores falando como seus personagens no exemplo de jogo. Você pode não gostar, mas é algo que está lá na raiz do jogo.

            Agora o cara ultra mega tímido que não sabe nem falar, só jogar o dado, pra mim é tão problemático numa mesa quanto o metido a sheakesperiano. D&D não é só jogar o dado, isso é D&D miniatures. É mais que fazer o que seu personagem faria: é mostrar o que seu personagem faria. Mas com descrições, não ações, por favor! 🙂

          • @freitaslex disse:

            Nesse ponto o Anand está certo. Isso é verdade! Em suma: D&D sem roleplay não é D&D, no entanto, isso não autoriza ao mestre a dar maiores bônus em jogadas por conta de interpretação, uma vez que a mesma é somente o tempero do jogo.

          • SharpWalker disse:

            Nesse ponto concordo contigo em gênero, número e grau. E ri muito com o "…Em um mês, vão começar a quebrar sua mobilia…"! 😀

            Roleplay, pra mim, é agir como seu personagem dentro do jogo… Minha mobília agradece! E é isso que eu espero incentivar em minha mesa. Não quero que o tal jogador introspectivo levante e comece a gritar, pule em cima da mesa e uive, mas quero que ele expresse sua opinião, descreva bem suas ações e bole uma situação legal, incrementando a ("minha") narrativa. As vezes, o bônus de +1 pode ser substituído (e é muito bom quando isso realmente é possível) por comentários pós-jogo, conversas em bar sobre tal ação memorável do char.. Mas algumas pessoas não se satisfazem simplesmente assim. Enfim… vai da cabeça de cada Mestre avaliar isso.

            Eu concordo com o Davi, eu jogo pelo RP. E procuro jogadores que sejam assim, tbém. Mas nem sempre é possível, e a gente precisa fazer uma boa limonada.

        • Davi Salles disse:

          Lol, concordo aqui com o Marcelo, mas seus exemplo do cachorro pega um pouco mal. Não acredito que os jogadores deveriam querer interpretar para ganhar bonus, isso deveria ser a parte lega ldo jogo. Eu mesmo adoro interpretar, é o que mais me dá tesão de jogar. Rolei 20 na diplomacia?!

          "Vossa Altesa tem a chance única de mostrar seu valor para seus homens, defenda suas terras do Oeste e seu povo irá até as profundesas do abismo com Vossa Altesa! Deixe escapar nosso fronte com o inimigo e é apenas um questão de tempo para vivermos sobre um déspota."

          Rolei um 20 ao mandar meu brutal strike?!

          "Minhas aulas com o Capitão Joseph foram terríveis, acordava 5 horas da manhã sobre o frio vento do Norte sobre as planícies de Aundair, carregava água, madeira e tudo mais que Joseph precisava, pensou o Guerreiro Flanco enquanto penentra com sua espada no meio do estômago do gnoll como Joseph havia ensinado. A criatura continua lutando, seu espírito é forte, seu corpo incansável, devem ter vendido até a última gota de suas almas para o Demônio."

          Seja no combate, seja no skill, seja nas preces matinaisn dos meus clérigos, eu gosto mesmo é de interpretar, afinal se o mundo é um palco, uma mesa de RPG deve ser um palco ainda mais legal.

          • @freitaslex disse:

            Davi "rolando 20" Salles trazendo o equilíbrio à força! É isso aí mesmo que o Davi disse! A interpreteção é o legal do jogo, diria que o tempero, porém não pode e não deve diferenciar em nada, na mecânica do jogo, ou seja, interpretou? legal e divertido; não interpretou mas foi eficiente nos dados? ótimo também! Nada de conceder benécias para a interpretação, isso "desbalanceia" a mecânica do jogo e desmotiva o player que não possui esse talento! Pessoal, não me confundam, eu gosto de jogar interpretando minhas ações e gosta de mestrar para players assim, mas não posso exigir ou muito menos dar presentes aos players que fazem isso em detrimento dos que não fazem, ou porque não querem ou porque não sabem! Valeu!

          • Davi Salles disse:

            Eu lembro de um amigo meu, que era um ótimo ator, participou de várias peças.

            Ele jogou várias vezes com personagens bem diferentes, do clérigo certinho e religioso ao kender barulhento e espalhafatoso. Era muito legal ver ele interpretando, e ele nunca fez questão de nenhum bonus. Encher o saco dos outros personagens (e jogadores) como kender mala foi maior que qualquer bonus, não teve preço.

    • @freitaslex disse:

      "a interpretação é feita com o intuito único de se divertir, e de deixar o jogo mais legal — mas não lhe dará nenhum bônus ou penalidade". Assino em baixo!

  10. Davi Salles disse:

    Olá Anand, acho que só faltou uma dica muito bom da escola nova, bem nova por sinal, de como fazer desafios sociais. Saiu há uma semana mais ou menos na dungeon. O autor do artigo sugere fazer uma ficha social do NPC, com suas motivações, medos, objetivos, peculiaridades e acho que mais uma coisa. Assim um mestre tem um guia para ir "levando" o social. Muito bacana o artigo, podemos comentar no próximo podcast.

  11. L.G.B.Paiva disse:

    Po… maneiro esse lance de rolar antes de falar… eu sempre fiz o oposto.. e considerava que, não importa o quão bom tenha sido o roleplay e o discurso, se saiu mal no dado, então os interlocutores não gostaram.

    Tentarei usar esse modo de rolar antes daqui pra frente e ver o que meus jogadores conseguirão fazer com isso… xD

  12. Sevandija disse:

    Poo, gostei da sua idéia de rolar os dados pra depois interpretar, mas prefiro dizer a CD do desafio depois que o jogador rola os dados pra ficar mais interessante hehe:p, porque tem cara muito azarado e outros muitos sortudos lol!xD Mas també concordo com o Marcelo que tem cara que viaja demais no RP e acha que tem que ganhar créditos por isso.:S Adorod o lance do RP mas, mestre que exige RP pra tudo é um pé no saco. No geral ótimo post mais uma vez. O site continua bombando!;)

    • Daniel Anand disse:

      Exigir que se fale em primeira pessoa acho errado, é preciso explicar sua ação. Eu acho muito paia só jogar o dado de Diplomacia ou Intimidate. No mímino, descreva a ação do personagem: "Meu bárbaro só dá uns resmungos, e pede os cavalos com desdenho". Sem frescura, e show de bola.

  13. Pingback: Tweets that mention Perícias interpretativas: escola velha e escola nova | Rolando 20 - DnD 4ª edição -- Topsy.com

  14. DmFininho disse:

    É complicado um novato entrar numa discussão acalorada como essa, mais preciso deixar minha opinião: O que sempre me despertou interesse no RPG, seja ele D&D ou Toons, foi o fato de ver um filme sendo criado por frases e piadas, entretanto para isso acontecer é necessário a interpretação ou mesmo descrição de algumas ações, concordo com o Marcelo que firulas ou teatrinhos muitas vezes atrapalham, mais também não acho certo impedir isso de acontecer, há jogadores e jogadores, alguns curtem o lance do floreio como o Davi, outros descrevem como o Anand demonstrou. Eu quando jogo (como jogador e não como mestre, o que raramente acontece), procuro mesclar os dois tipos, pois há momentos que permitem um floreio e outros que exigem rapidez. Como o artigo sugere retirando pericias, talentos e colocando alguns limites no jogo temos uma sensação de escolavéia (™tionitro), mais se exagerarmos com as dicas tornamos o RPG em Wargame e sinto muito mais pra jogar tabuleiro prefiro o jogo da vida do bob esponja. Por fim faço das últimas letras do Anand as minhas “no mímino, descreva a ação do personagem”.

  15. Woodstock disse:

    Anand, eu curto muito o que o Star Wars Saga Edition utiliza em perícias como Use Computer. Uso perícias sociais, como diplomacy, bluff, ou persuasion, apenas como modificador de reação do alvo. Ainda será necessário o roleplay, mas uma boa rolagem pode tornar o alvo do roleplay mais suscetível de convencimento… ou não! A habilidade do roleplayer é influenciada apenas para avaliar se o receptor é hostil ou amigável.

    E isso em muito se aproxima do Reaction Adj do AD&D. Por isso, a turma old school não pode me criticar porque meu sistema favorito impede roleplay!
    My recent post RPGArautos na Ludus: Primeiro evento de 2010

  16. alvaro disse:

    é li este artigo tb e achei um tanto que estranho pelo menos, gosto do método citado pelo anand, contudo existe a falha dos bônus serem dados após a rolagem dos dados e da interpretação, na minha humilde opinião existe uma forma bem simples de resolver este aspecto que interpreto como um problema, eu como mestre simplismente não revelo o nivel de desafio do teste, se o jogador perguntar eu falo se é facil, ou dificil peço pra ele lançar o dado e comparo com a dificuldade estabelecida, e peço o roleplay então dou bônus ou penalidade de acordo com a interpretação
    My recent post A Essência de Um Ladino

  17. Ótimo artigo.

    Uma coisa que vejo que é comum acontecer nas mesas é o narrador dizer o que acontece enquanto os jogadores ficam passivos esperando pelo resultado.
    My recent post D&DXP: Encontros de D&D

  18. Paulo "Oculto" disse:

    Olá Rolando 20
    O motivo desse post é realmente o que lhe diz o título, como usar as regras da nova edição com um estilo da velha.
    Eu li o post em seu site e achei muito interessante. Aliás, excelentes idéias lá! Mas isso ainda não consegue captar o "feeling" da primeiras edições, é uma outra forma, totalmente válida, de encarar as rolagens de dados sociais. E o motivo do post que escrevi é apenas isso: idéias sobre como captar um pouco desse ideal. A premissa central é que o jogo deve instigar muito mais o player do que seu personagem e o domínio sobre ele, na medida do possível, já que não é possível interpretar sem regras a escalada a uma montanha, o combate contra hordas de goblins, etc. Uma parte disso é conseguida simplificando ao máximo o tipo de informação que está "escrita" na ficha e dando mais liberdade ao jogador para interpretar sem tantas limitações.
    Era assim que os primeiros D&D's encaravam esse parte da aventura e é o motivo de ter escrito como escrevi. O post em nenhum momento é uma tentativa de provar um que a "nova" ou "velha" escola é melhor ou pior do que a outra, mas uma maneira de mesclar o novo com o antigo. Obviamente, isso não é a sua praia, que está satisfeito como as coisas estão, mas é útil para os "matusa" com quem eu jogo!
    No mais, obrigado pela resposta e me honra muito um blog badalado como o de vocês ter feito referência a minha humilde pessoa, sem muitas pretensões de alcançar uma larga audiência! Acompanho seu blog e adoro seus podcasts.
    Um grande abraço
    Paulo

  19. Aliás, o post na fale é um repeteco dos que escrevo para o meu blog, chamado masmorras da mente . Estão todos convidados a comentar, e criticar, lá:D

    Um grande Abraço
    Paulo
    My recent post O movimento Old School

  20. Jorge Leandro disse:

    Eu penso diferente. Para mim, o jogador deve rolar o dado DEPOIS da interpretação e o valor do dado será usado para modificar o resultado da interpretação.

    Basicamente eu faço o seguinte. O jogador interpreta e eu (mestre), de forma rápida e em silêncio, avalio qual foi o resultado em cinco categorias: péssimo, ruim, neutro, bom , ótimo. Lembro que não se trata de avaliar se o jogador é um artista, mas se os argumentos que ele utilizou colaboram para alcançar o objetivo definido.

    Depois de anotar mentalmente o resultado, eu peço para o jogador rolar o dado. É importante ressaltar que o valor do dado, por ser aleatório, não definirá o sucesso do teste, mas sim a receptividade do interlocutor à conversa do personagem (quanto maior o nível do jogador naquela perícia, mais capaz ele será de fazer com que outras pessoas se interessem pelos seus argumentos).

    Ou seja, se o jogador fez uma interpretação mediana (com argumentos consistentes mas nada de extraordinário) e atingiu o nível neutro da escala, ele tem que ser bem sucedido nos dados para passar no teste. Numa outra situação, se o jogador só falou abobrinha, eu aplico um redutor ao valor do dado, de forma que é possível ele ter tirado um valo ralto e ainda assim ter falhado no teste. Ainda, se o jogador usou cada palavra-chave necessária para conseguir dobrar o interlocutor e foi muito bem avaliado na escala, eu aplico um bônus ao dado, possibilitando a ele passar no teste mesmo tirando um valor baixo.

    Com esse método, a interpretação do jogador não será afetada pelo sistema, ou seja, todos os jogadores se sentirão livres para agirem da forma como quiserem, se esforçando para conseguir o melhor resultado do roleplay.

  21. Já eu prefiro deixar os jogadores fazerem seu roleplay e depois rolarem os dados. Pode não parecer, mas acho que isso gera mais entusiamo por parte dos pdjs, que ficam na ansiedade de saber se terão ou não direito ao bônus (ou penalidade) em sua jogada!

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